domingo, 25 de maio de 2014

AS MIGRAÇÕES E AS CONTRADIÇÕES INTERNACIONAIS




AS MIGRAÇÕES E AS CONTRADIÇÕES INTERNACIONAIS
"Hoje o mundo é mundial"

Desde 1950, a produção mundial foi multiplicada por 5 e as trocas comerciais antes das 11, mas quem tira proveito deste crescimento? Em 6 bilhões de seres humanos, 500 milhões humanos vivem confortavelmente; 5,5 bilhões são pobres. Pelos anos 60 e 70, o número de pobre (esses que ganham menos de 1 dólar por dia) se eleva para 200 milhões de pessoas. No princípio dos anos 90, o número deles era de 2 bilhões. Hoje, no mundo, tem 20 milhões de refugiados e 30 milhões de pessoas “deslocadas”; 150 milhões de migrantes "econômicos” _ (20 milhões na Europa; e 50 milhões de africanos no mundo). A África tem o único presente dela 5 milhões de refugiados e 20 milhões de pessoas fora de lugar.

Compreender a Internacionalização

Internacionalização (ou globalização) é a fruto da combinação de três
fatores:
- o crescimento do espaço das trocas pela integração de países novos (os
jogadores novos);
- o globalização dos empreendimentos grandes que organizam ao nível mundial
as suas atividades de pesquisa, provisão, produção e comercialização (jogos novos).
- o crescimento das trocas graças a liberalização ou desregramento (regras novas do jogo).
A gente pensou que globalização (mas nenhum de opulências!) poderia fazer mais baixo a necessidade para emigrar. Porém, apesar da abertura grande dos mercados, os países em desenvolvimento são cada vez mais os recipientes dos estranhos de bens de consumo em lugar de dos lugares fixos capaz manter os trabalhadores, emigrantes potenciais, lá.
Caso contrário, a lógica de internacionalização gostaria isso à circulação grátis de fundos e bens é somado a circulação grátis das pessoas, mas das pessoas reduzidas à condição de mão-de-obra, isso significa mercadoria como qualquer outro, sujeito às únicas regras do mercado. A extensão para o "trabalho de mercadoria" da versão liberal de internacionalização significaria o desmantelando da reunião social de sistemas protetora, porque liberalismo saberia só admitir completamente a circulação livre dos trabalhadores para o nível mundial é moldado através de regulamentos nacionais protetores: salário mínimo, limitação do comprimento de trabalho, condições mínimas de higiene e segurança, interdição do trabalho das crianças, etc.
Para uma certa internacionalização de riqueza de qual benefícios as camadas sociais dominantes dos países pobres, corresponde uma internacionalização de pobreza que alcança setores vastos da população dos Estados ricos, notavelmente as pessoas de origem estrangeira e, mais particularmente, aqueles que se encontram em situação irregular. Estas vítimas da internacionalização liberal constituem um reservatório de uma barata mão-de-obra excessiva. A situação deles é agravada novamente pela
dependência deles com respeito ao mafiosos de redes de tráfico de seres
humanos,
sem
a intervenção da qual fica quase impossível penetrar no
território dos países ricos.
O contexto presente (internacionalização) está lá diferente do contexto dele tem 50 anos (industrialização): para uma certa criminalização dos migrantes "clandestinos". O fechamento generalisado das fronteiras, uma transformação da natureza das migrações:

- de temporário, fica definitivo
- de masculino e solteiro se tornado doméstico.

As sociedades Ocidentais vivem desde uma crise profunda:
- desemprego se desenvolveu de um modo estrutural;
- o medo do futuro dobrou setores inteiros destas sociedades em uma
identidade mais fechada;
- as falas que designam os estranhos como fatores de insegurança e
competidores no mercado de trabalho aumentaram, enquanto achando um eco
favorável na opinião pública.

Mudança do paradigma migratório: da industrialização para internacionalização

Nós passamos:
- da sociedade industrial para a sociedade pós-industrial
(internacionalização)
- da urbanização para a recolocação
- das "classes laboriosas" (com exceções) para as "classes perigosas"
(tudo!)
- do processo de inclusão para o processo de exclusão
- de imigração assimilada à imigração criminal
- do estado social para o estado penal
- de um mundo "aberto" a uma "fortaleza" mundial

A migração se tornou então quase em todos lugares uma ofensa procurada de cada vez pelos países de partida e pelos países de destino. Este fato
constitui o primeiro "fator" de criminalização da migração que transforma as políticas migratórias dos países europeus assim em um tipo de panóplia de militaro-polícia em lugar de uma real possibilidade de inserção regular.

As características das migrações presentes

O tráfico de migrantes

Nenhum país é imunizado contra a migração irregular (Cf. os 8 milhões de
clandestino avaliou para os Estados Unidos) - fenômeno inerente para todos os fluxos migratórios -, que este aqui leva a forma de entradas, permanências ou trabalhos irregulares. Na África, antes das possibilidades mais reduzidas para ir para os países ricos, a única saída dos migrantes é adquirir nas mãos dos traficantes aos métodos perigosos e ilegais (explorações físicas e sexuais, passaportes confiscados, prostituição e trabalho forçado, torturas). todos os anos, as pessoas falam assim de várias centenas de milhares de mulheres e crianças negociadas da África e na África. Vários países africanos (Nigéria, Gana, Costa de Marfim, Senegal, Etiópia, Quênia, Camarões, Mali, o Níger) é ao mesmo tempo países de origem, de trânsito e destino dos tráficos. E, Itália, Bélgica, os Baixos Países os Estados Unidos, o Oriente Mediano e os países do Golfo se tornaram destinos privilegiados de africanos, vítimas de tráficos.
Na Ásia do Leste onde os países de destino não são necessariamente
adjacentes dos países de origem, a migração irregular se apresenta debaixo de pessoas amolde em situação de permanência que colhe ou aquele trabalho irregularmente. Na Ásia do Sul e o Sudeste onde os países principais de parte de destino uma borda com o país de origem (a Tailândia e Birmânia ou Malásia e Indonésia), os migrantes irregulares entram e ficam sem os documentos requeridos [250 000 irregulars no Japão, 220 000 na Coréia, de 600 000 a 1 milhões em Malásia, 1 milhões na Tailândia, 1,9 milhões de Filipinos no estrangeiro vive em situação irregular].
O poucos de sucesso contra a migração irregular (a maioria dos países
reforçou as medidas deles de controle das bordas), revela que a migração
irregular é um componente estrutural da mobilidade do mão-de-obra. cresceu em número e em complexidade enquanto confundindo com o tráfico de seres humanos. Este último é especialmente flagrante no caso das crianças usado a fins de prostituição ou fazer um não trabalho vantajoso, ou no caso das vítimas de crianças da conta debaixo da mesa que fixa de adoção.
As mulheres também são as vítimas dos traficantes, recrutou para trabalhos legítimos entretanto forçado a prostituir, se casar, trabalhar em lojas clandestinas. Porém, o tráfico que se é o mais aumentado estes últimos anos são o tráfico dos migrantes chineses (50 000 por ano, especialmente da província do Fujian) para o Norte da América e Europa.
Na Europa, o fenômeno da imigração "clandestina" permaneceu com dificuldade e quase sem solução. No princípio dos anos 90, avaliou-se a 2,6 milhões os estrangeiros em situações irregulares. As várias regularizações (na maioria dos países europeus) revela que as migrações não são temporárias ou circunstanciais, mas estruturais; que controlar e administrar os fluxos as intervenções policial ou as medidas repressivas não são suficientes; que o objetivo de legalidade deve ser vindo com, dentro de, por políticas de integração e, fora de, por acordos internacionais e por programas de cooperação e desenvolvimento.
Um dos elementos de chamada para a imigração clandestina é provido pela
economia casual, muito presente na Europa. O setor casual da economia puxa vantagens importantes do clandestino mão-de-obra, mais flexível e menos caro.

O caráter transnacional dos migrantes

A migração presente, ancorada a redes sociais poderosas, tem um caráter
oscilando e mantém material fundo e gravatas simbólicas entre o país de
origem e os países de acolhimento. Desenvolve as formas culturais que estão limpo a ele. Assim, estes migrantes novos mostram evidência de um poder de resistência que reduz a velocidade a integração deles na sociedade de acolhimento.

O feminização

Um das características novas dos fluxos migratórios presentes é em particular o componente feminino elevado, que se aparece em um contexto maior de uso crescente da força de trabalho feminina do terço-mundo. Esta mão-de-obra investe o fabricante de setor em crise (sweatshops, trabalhe em casa), os serviços urbanos barato.

A intensificação da exclusão social

Os migrantes, como outra reunião social vulnerável se agrupa, é as vítimas da "exclusão" em nome da sociedade de acolhimento. Esta exclusão pode ser ativa ou passiva. As exclusões "passivas" são esses que os migrantes compartilham com outros grupos vulneráveis por causa da condição social: baixo padrão de vida, desemprego ou problemas se encontraram para chegar ao mercado de trabalho.
A exclusão ativa se aparece debaixo da forma de segregação ou discriminação. A segregação força o imigrante a limitar-se em reunião social, esferas culturais ou físicas aparte desses que ocupam o jogo da sociedade bem-vinda. Assim, a exclusão pode resultar em práticas distintivas como a instalação de imigrante em distritos marginais, ou através de isolamento sociocultural. A discriminação ordenhou à desigualdade de tratamento que humilha o imigrante nos vários domínios da vida social onde evolui.

Os casos de Europa: para uma "imigração precária"

A união européia funda a circulação interna grátis no controle rígido das bordas externas. Ela considera uma abertura seletiva destinou para satisfazer assim às únicas necessidades da economia. São aplicados daqui em diante sistematicamente o precarisação e o "flexibilização" de trabalho, entrados nos muros de nossas sociedades, aos imigrantes dos países pobres aquele deixa vir e trabalhar algum tempo nas sociedades ricas, antes de lhes mandar de volta a eles, na hora das crises econômicas. Claro que, os trabalhadores altamente qualificados (os "cérebros") poderia ter o privilégio para alcançar o estatuto residente permanente ou fazer naturalizar bastante depressa.
As pessoas também falam de imigração através de cotas, puxando, através de pontos, por contratos de missão... de qualquer maneira, os Estados usam os mecanismos mais variados para manter um certo relatório entre imigrantes em situação regular e imigrante em situação irregular. Entre estes mecanismos, há o regularizations periódico de trabalhadores em situação irregular, alguns acolhimentos volumosos de refugiados qualquer um algumas operações humanitárias das que combatem pontualment os déficits setoriais de mão-de-obra.
Em muitos países, consideram as autoridades que a prioridade deve ser concedida à luta contra as discriminações de qual é as vítimas os stranhos ou o nacional de origem estrangeira em lugar de para as ações que apontam para integrar os trabalhadores imigradas na sociedade de acolhimento. A luta contra as discriminações é essencial, mas, como a pessoa fala de abertura seletiva das bordas, desconsiderar a "integração" de veneziana das políticas migratórias significariam que os imigrantes novos não teriam "vocação" para permanecer por muito tempo na sociedade de acolhimento.
De fato, mais que lutar contra a imigração "clandestina" - se imigração não é proibida ela não pode ser irregular - concordaria em fazer a guerra ao uso irregular, o uso não declarado de mão-de-obra, quer seja sua nacionalidade ou estado de seu no país. Até agora, as sociedades se organizadas de acordo com o sistema que dirige toda pessoa para aceitar a obrigação defender-se agrupam-se em troca da proteção que um grupo lhe oferece enfrentando os outros grupos. O sócio do grupo se define então por oposição - inevitavelmente contraditório - para o sócio de non do mesmo grupo. Está de acordo com este diagrama que o nacional se define em relação ao nacional de non; o comunal se define por oposição para o non comunal.

Que ação visa a internacionalização oposta?

É necessário ver de fora a obsessão do "todo econômico": globalização também é outro modo para ver as pessoas e ter algumas relações entre os povos é então necessário inventar a "dosagem boa" entre a global e local. E que, nos domínios diferentes de vida: a família, escola, trabalho, lazeres, Igreja, políticas.

Lorenzo Prencipe
Publicado em Porto Alegre 2003: 14/12/200
  Disponível em :http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=sl39. Acesso em 25 de maio de 2014.

A ARMA DOS PODEROSOS

A ARMA DOS PODEROSOS
Um norte-americano fala do terrorismo praticado pelos Estados Unidos, país que não respeita as formas judiciais internacionalmente instituídas. A América Latina foi um dos principais alvos da violência

Devemos partir de dois postulados. O primeiro é que os acontecimentos de 11 de setembro constituem uma atrocidade terrível, provavelmente a perda instantânea de vidas humanas mais importante da história, guerras à parte. O segundo postulado é que nosso objetivo deveria ser reduzir o risco de reincidência de tais atentados, sejamos nós ou outras pessoas as suas vítimas. Se você não aceita esses dois pontos de partida, o que vem a seguir não lhe diz respeito. Se você os aceita, muitas outras questões se apresentam.

Comecemos pela situação no Afeganistão. Haveria, no Afeganistão, vários milhões de pessoas ameaçadas pela fome. Isso era verdadeiro já antes dos atentados; elas sobreviviam graças à ajuda internacional. No dia 16 de setembro, os Estados Unidos exigiram, no entanto, que o Paquistão suspendesse os comboios de caminhões que levavam alimentos e outros produtos de primeira necessidade para a população afegã. Essa decisão não provocou reação alguma no Ocidente. A retirada de parte do pessoal humanitário tornou a assistência ainda mais problemática. Uma semana após o início dos bombardeios, a ONU considerava que a aproximação do inverno tornaria impossíveis as entregas, já reduzidas à quantidade de alimentos apenas suficiente para sobreviver devido aos ataques da aviação norte-americana.

Quando organizações humanitárias, civis e religiosas, e o relator da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) pediram a suspensão dos bombardeios, a informação nem sequer foi publicada pelo New York Times; o Boston Globe dedicou-lhe uma linha inserida num artigo que tratava de outro assunto: a situação na Caxemira. Em outubro passado, portanto, a civilização ocidental resignou-se a ver morrerem centenas de milhares de afegãos. No mesmo momento, o chefe dessa mesma civilização informava que não se dignaria a responder às propostas afegãs de negociação sobre a questão da entrega de Osama bin Laden nem à exigência de uma prova que permitisse fundamentar uma eventual decisão de extradição. Só seria aceita uma capitulação incondicional.

Mas voltemos ao 11 de setembro. Nenhum crime, nada foi mais mortífero na história — ou, então, o foi durante um período mais longo. De resto, as armas, desta vez, visaram a um alvo não habitual: os Estados Unidos. A analogia com Pearl Harbour, muitas vezes evocada, é inadequada. Em 1941, o exército nipônico bombardeou bases militares em duas colônias de que os Estados Unidos se haviam apossado em condições pouco recomendáveis; os japoneses não atacaram o território norte-americano propriamente dito.

Reação diferente aos atentados
Durante quase duzentos anos, nós, norte-americanos, expulsamos ou exterminamos populações indígenas, isto é, milhões de pessoas; conquistamos a metade do México; saqueamos a região do Caribe e da América Central; invadimos o Haiti e as Filipinas (matando, na ocasião, 100 mil filipinos). Depois, após a 2ª Guerra Mundial, estendemos nosso domínio sobre o mundo da maneira que se conhece. Mas, quase sempre, éramos nós que matávamos, e o combate se travava fora de nosso território nacional.

Ora, isso é fácil de constatar quando se é questionado, por exemplo, sobre o IRA e o terrorismo: as questões dos jornalistas são muito diferentes, dependendo de que lado do mar da Irlanda exercem sua profissão. Em geral, o planeta aparece sob um outro aspecto, variando conforme se segure o chicote há muito tempo ou se tenha tomado as chicotadas durante séculos. No fundo, talvez seja por isso que o resto do mundo, mesmo se mostrando univocamente horrorizado pelo destino das vítimas, não tenha reagido da mesma maneira que nós aos atentados de Nova York e Washington.
Para compreender os acontecimentos de 11 de setembro, é preciso distinguir, por um lado, os executores do crime, e, por outro, o imenso leque de compreensão de que esse crime se beneficiou, inclusive entre os que a ele se opunham. Os executores? Supondo-se que se trate da rede de Bin Laden, ninguém sabe mais sobre a gênese desse grupo fundamentalista do que a CIA e seus asseclas: eles o incentivaram à nascença. Zbigniew Brzenzinski, diretor da Segurança Nacional do governo Carter, felicitou-se pela ‘‘armadilha’’ preparada para os soviéticos em 1978, que consistia — por meio de ataques de mujahidin (militantes islâmicos organizados, armados e treinados pela CIA) contra o regime de Cabul — em atrair os soviéticos para o território afegão, no final do ano seguinte. Somente depois de 1990 e da instalação de bases norte-americanas permanentes na Arábia Saudita, terra sagrada para o Islã, é que esses combatentes se voltaram contra os Estados Unidos.

Para tentar explicar o amplo leque de simpatia com que contam as redes de Bin Laden, no entanto, inclusive nas camadas dirigentes dos países do hemisfério Sul, é necessário partir da raiva que provoca o apoio dos Estados Unidos a todo tipo de regimes autoritários ou ditatoriais; é necessário lembrar-se da política norte-americana que destruiu a sociedade iraquiana, consolidando o regime de Saddam Hussein; é necessário não se esquecer do apoio de Washington à ocupação israelense de territórios palestinos desde 1967. No momento em que os editoriais do New York Times sugerem que ‘‘eles’’ nos detestam porque defendemos o capitalismo, a democracia, os direitos individuais, a separação entre a Igreja e o Estado, o Wall Street Journal, melhor informado, explica, após ter ouvido banqueiros e executivos não-ocidentais, que eles ‘‘nos’’ detestam porque impedimos a democracia e o desenvolvimento econômico. E demos apoio a regimes brutais, e até terroristas.
Prioridade que não é de hoje
Nos meios dirigentes ocidentais, a guerra contra o terrorismo foi apresentada como se fosse uma ‘‘luta dirigida contra um câncer disseminado por bárbaros’’. Mas essas palavras e essa prioridade não são de hoje. Há vinte anos, o presidente Ronald Reagan e seu secretário de Estado, Alexander Haig, já as enunciavam. E, para conduzir esse combate contra os adversários depravados da civilização, o governo norte-americano instalou, então, uma rede terrorista internacional de amplitude
sem
precedentes. Praticaram-se inúmeras atrocidades de uma ponta à outra do planeta, e essa rede dedicou o essencial de seus esforços à América Latina.

Um caso, o da Nicarágua, não deixa margem à dúvida: realmente, foi decidido de modo categórico pelo Tribunal Penal Internacional de Haia e pela ONU.

Pergunte-se a você mesmo quantas vezes esse precedente indiscutível de uma ação terrorista — à qual um Estado de direito quis responder através dos meios do direito — foi evocado pelos principais comentaristas. E, no entanto, tratava-se de um precedente ainda mais radical que os atentados de 11 de setembro: a guerra do governo Reagan contra a Nicarágua provocou 57 mil vítimas, entre as quais 29 mil mortos, e a ruína de um país, talvez de forma irreversível.

Na época, a Nicarágua reagiu. Não explodindo bombas em Washington, mas submetendo o caso ao Tribunal Penal Internacional. Este, no dia 27 de junho de 1986, decidiu categoricamente em favor das autoridades de Manágua, condenando o ‘‘uso ilegal da força’’ pelos Estados Unidos (que haviam minado os portos de Nicarágua), e determinando que Washington pusesse fim ao crime, sem esquecer de pagar vultuosas perdas e danos. Os Estados Unidos replicaram que não acatariam a sentença e que passariam a não reconhecer a jurisdição do Tribunal.

A Nicarágua pediu então ao Conselho de Segurança da ONU a aprovação de uma resolução exigindo que todos os países respeitassem o direito internacional. Não se citava nenhum em particular, mas todos compreenderam. Os Estados Unidos votaram contra a resolução. Portanto, hoje, são o único país que, simultaneamente, foi condenado pelo Tribunal Internacional de Justiça e se opôs a uma resolução exigindo... o respeito ao direito internacional. Depois, a Nicarágua dirigiu-se à Assembléia Geral da ONU. A resolução que propusera teve três votos contra: dos Estados Unidos, de Israel e de El Salvador. No ano seguinte, a Nicarágua reivindicou a votação da mesma resolução. Desta vez, só Israel defendeu a causa do governo Reagan. A essa altura, a Nicarágua não dispunha de mais nenhum meio legal. Todos haviam fracassado em um mundo regido pela força. Este precedente não dá margem a qualquer dúvida. Quantas vezes falamos sobre ele na universidade, nos jornais?
Acontecimentos incômodos
Essa história revela várias coisas. Em primeiro lugar, que o terrorismo funciona. A violência também. Em seguida, que é um equívoco pensar que o terrorismo seria o instrumento dos fracos. Como a maioria das armas mortíferas, o terrorismo é, antes de tudo, a arma dos poderosos. Quando se diz o contrário, é unicamente porque os poderosos controlam também os aparelhos ideológicos e culturais, que permitem que o terror deles seja visto como uma coisa diferente do terror. Um dos meios mais comuns de que dispõem para chegar a tal resultado é fazer com que acontecimentos incômodos desapareçam da memória; assim, mais ninguém se lembra deles. Em suma, tamanho é o poder da propaganda e das doutrinas norte-americanas que se impõe, inclusive, às suas vítimas. Vá à Argentina e tente lembrar o que acabo de dizer: ‘‘Ah, sim, mas tínhamos esquecido!’’

A Nicarágua, o Haiti e a Guatemala são os três países mais pobres da América Latina. Também estão entre os que os Estados Unidos intervieram militarmente. A coincidência não é necessariamente acidental. E tudo isso aconteceu num clima ideológico marcado por declarações entusiásticas dos intelectuais ocidentais. Há alguns anos, a auto-congratulação fazia o maior sucesso: fim da história, nova ordem mundial, Estado de direito, ingerência humanitária etc. Era coisa muito freqüente, enquanto deixávamos que se cometessem atrocidades em grande quantidade. Pior, contribuíamos para isso de maneira ativa. Mas quem falava a respeito? Uma das proezas da civilização ocidental é, talvez, tornar possível esse tipo de inconseqüência numa sociedade livre. Um Estado totalitário não dispõe desse dom.
O terrorismo e o direito dos povos

Que é o terrorismo? Nos manuais militares norte-americanos, define-se como terror a utilização calculada, para fins políticos ou religiosos, da violência, da ameaça de violência, da intimidação, da coerção ou do medo. O problema de tal definição é o fato de se aplicar muito exatamente ao que os Estados Unidos chamaram de guerra de baixa intensidade, reivindicando esse gênero de prática. Aliás, em dezembro de 1987, quando a Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução contra o terrorismo, um país se absteve de votar, Honduras, e dois outros votaram contra, os Estados Unidos e Israel. Por que fizeram isso? Por causa de um parágrafo da resolução que indicava que não se tratava de questionar o direito dos povos de lutarem contra um regime colonialista ou contra uma ocupação militar.

Ora, na época, a África do Sul era aliada dos Estados Unidos. Além dos ataques contra seus vizinhos (Namíbia, Angola etc.), o que provocou a morte de centenas de milhares de pessoas e acarretou uma destruição avaliada em 60 bilhões de dólares, o regime racista de Pretória enfrentava, dentro do país, uma força classificada de ‘‘terrorista’’, o African National Congress (ANC). Quanto a Israel, ocupava ilegalmente territórios palestinos desde 1967, outros no Líbano desde 1978, guerreando, no sul desse país, contra uma força classificada por ele e pelos Estados Unidos de ‘‘terrorista’’, o Hezbollah. Nas análises habituais do terrorismo, tal tipo de informação ou de evocação não é comum. Para que as análises e os artigos de imprensa sejam considerados respeitáveis, é melhor, realmente, que se situem do lado bom, ou seja, o dos braços melhor armados.
Uma dívida de gratidão
Na década de 90, foi na Colômbia que ocorreram as piores agressões aos direitos humanos. A Colômbia foi o principal destinatário da ajuda militar norte-americana, sem considerar Israel e Egito, que constituem casos à parte. Até 1999, logo atrás desse país, o primeiro lugar cabia à Turquia, a quem os Estados Unidos entregaram uma quantidade crescente de armas desde 1984. Por que esse ano? Não que a Turquia, membro da Otan, devesse enfrentar a União Soviética, já em via de desintegração na época, mas para que pudesse comandar a guerra terrorista contra os curdos. Em 1997, a ajuda militar norte-americana à Turquia ultrapassou a que esse país havia obtido durante todo o período de 1950-1983, o da guerra fria. Resultados das operações militares: 2 a 3 milhões de refugiados, dezenas de milhares de vítimas, 350 cidades e vilarejos destruídos. À medida que a repressão se intensificava, os Estados Unidos continuavam a fornecer cerca de 80 % das armas usadas pelos militares turcos, acelerando mesmo o ritmo de suas entregas. A tendência foi revertida em 1999. O terror militar, naturalmente classificado de ‘‘contra-terror’’ pelas autoridades de Ancara, havia, então, atingido seus objetivos. É o que quase sempre acontece quando o terror é empregado por seus principais utilizadores: as potências estabelecidas.

No caso da Turquia, os Estados Unidos não lidaram com um ingrato. Washington lhe entregara aviões F-16 para bombardear sua própria população: ela os utilizou em 1999 para bombardear a Sérvia. Depois, alguns dias após o 11 de setembro passado, o primeiro ministro turco, Bülent Ecevit, informava que seu país participaria com entusiasmo da coalizão norte-americana contra a rede de Bin Laden. Explicou, na oportunidade, que a Turquia havia contraído para com os Estados Unidos uma dívida de gratidão que remontava à sua própria ‘‘guerra anti-terrorista’’ e ao apoio inigualável de Washington. É verdade que outros países apoiaram a guerra de Ancara contra os curdos, mas nenhum com tanto zelo e eficácia quanto os Estados Unidos. Esse apoio contou com o silêncio, ou (talvez a palavra seja mais adequada) a subserviência das classes cultas norte-americanas. Porque não ignoravam o que se passava. Afinal de contas, os Estados Unidos são um país livre; os relatórios das organizações humanitárias sobre a situação no Curdistão eram de domínio público. Portanto, na época, nós optamos por contribuir para as atrocidades.
O que fazer na situação atual?
Nossa coalizão contra o terrorismo conta com outros recrutas de estatura. O Christian Science Monitor, sem dúvida um dos melhores jornais no que se refere à abordagem do noticiário internacional, confiou, por exemplo, que alguns povos que gostavam pouco dos Estados Unidos começavam a respeitá-los mais, particularmente felizes por vê-los comandar uma guerra contra o terrorismo. O jornalista, que, entretanto, é especialista em assuntos relativos à África, citava o caso da Argélia como principal exemplo dessa virada. Deveria saber, então, que a Argélia dirige uma guerra terrorista contra seu próprio povo. A Rússia, que dirige uma guerra terrorista na Chechênia, e a China, autora de atrocidades contra os que classifica de separatistas muçulmanos, também aderiram à causa norte-americana.

Que seja. Mas o que fazer na situação atual? Um radical tão extremista quanto o papa sugere, diante do crime de 11 de setembro, procurar os culpados e depois submetê-los a julgamento. Porém, os Estados Unidos não querem recorrer às formas judiciais normais; preferem não apresentar prova alguma e se opõem à existência de uma jurisdição internacional. Mais ainda, quando o Haiti reivindicou a extradição de Emmanuel Constant (considerado responsável pela morte de milhares de pessoas após o golpe de Estado que depôs o presidente Jean-Bertrand Aristide, no dia 30 de setembro de 1991) e apresentou provas de sua culpa, o pedido não teve qualquer efeito em Washington. Nem sequer foi objeto de qualquer tipo de discussão.

Lutar contra o terrorismo implica reduzir o grau do terror, e não aumentá-lo. Quando o Exército Republicano Irlandês (IRA) comete um atentado em Londres, os britânicos não destroem Boston, cidade onde o IRA tem muito apoio, nem Belfast. Procuram os culpados e, na seqüência, os julgam. Uma forma de reduzir o grau de terror seria parar de contribuir para ele. Depois, refletir sobre as orientações políticas que criaram uma logística de apoio da qual, em seguida, se aproveitaram os mandantes do atentado. Nas últimas semanas, a tomada de consciência, pela opinião pública norte-americana, dos vários tipos de realidades internacionais (de cuja existência apenas as elites suspeitavam) constitui, talvez, um passo nesse sentido.
Noam Chomsky
Tradução de Iraci D. Poleti
Correio Brasiliense, Brasília, 23 de dezembro de 2001
Disponível em: http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=sl14. Acesso em 25 de maio de 2014.

CONFLITOS MUNDIAIS

 

 

 

 OS CONFLITOS MUNDIAIS 

.Hoje existem cerca de 30 regiões no mundo onde ocorrem conflitos armados.
Os principais motivos dos conflitos são:
Étnicos – ETNIA – grupo de identidade unido por fatores biológicos (raça) e culturais (nacionalidade, língua religião, costumes.
Políticos e ideológicos.
Territoriais.
Econômicos.
Recursos naturais.
Os conflitos podem ser:
Externos: quando envolvem disputas entre dois ou mais países.
Internos: quando envolvem disputas entre grupos que pertencem a um único país.
Os principais conflitos mundiais da atualidade são:
A questão do ORIENTE MÉDIO.
O TERRORISMO EUROPEU.
O NARCOTRÁFICO NA AMÉRICA DO SUL.
OS CONFLITOS AFRICANOS.

ORIENTE MÉDIO: A Bíblia diz que Abraão gerou um filho, Isaac. Além de Isaac, gerou um filho bastardo, Ismael.Isaac tornou-se o pai de todos os judeus e Ismael, o pai de todos os árabe-palestinos. Uma guerra entre dois clãs irmãos, que atravessa mais de 5.000 anos.
1948 – Fundação do Estado de Israel, após acordo mediado pela ONU.
Os limites e os acordos sobre a distribuição territorial entre Judeus e Palestinos nunca foi totalmente respeitado e reconhecido por ambas as partes.
Fronteiras dividindo o território entre Judeus e Palestinos já foram marcadas e remarcadas diversas vezes, e sempre que está para ocorrer um acordo de paz entre ambas as partes, os radicais de ambos os lados acabam interferindo, dando continuidade à violência.
Interesses internacionais numa região estrategicamente situada entre três continentes, rica em petróleo, tornam as disputas ainda mais complexas. Questões étnico-religiosas misturam-se a questões políticas e econômicas. O fundamentalismo muçulmano age em forma de terrorismo, enquanto o capital judeu, oriundo principalmente dos Estados Unidos, financia a repressão Israelense. A violência acaba se estendendo a outros países da região, e mesmo a países distantes, porém envolvidos.
Alguns dos principais episódios deste conflito:
O assassinato dos atletas israelenses nas olimpíadas de Munique em 1972 – Setembro Negro.
A Guerra Irã X Iraque, entre 1980 e 1990.
A Guerra do Golfo entre 1990 e 1991.
O maior atentado terrorista da história, com a destruição das torres gêmeas de Nova York e milhares de mortos em 11 de setembro de 2001.

O TERRORISMO EUROPEU:
A Questão Basca - Na Espanha os bascos querem independência, o ETA – Exército Separatista Basco, pratica atos terroristas, apaziguados no momento.
A Questão Irlandesa - Irlanda do Norte - católicos querem a separação da Inglaterra - ações terroristas do IRA – Exército Republicano Irlandês. Destaque para o trabalho humanista e político do astro do rock Bono Vox.

O NARCOTRÁFICO NA AMÉRICA DO SUL:
O passado colonial, o subdesenvolvimento, as ditaduras e a instabilidade política estimularam o surgimento de movimentos guerrilheiros na América do Sul.
Tais movimentos, de inspiração socialista, devido à repressão desapareceram do continente nos anos 70, exceto na Colômbia onde a guerrilha das FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – associou-se sob condições circunstanciais ao narcotráfico internacional, já que a região amazônica é a maior, e a única produtora de cocaína do mundo, pois a planta de onde se extraí a cocaína, a coca, tem seu consumo culturalmente aceito e amplamente difundido entre as culturas andinas, uma vez que em forma de chá ou folha para mascar como é popularmente consumida, não possuí os devastadores efeitos da droga refinada.
Passagem obrigatória das ricas rotas de tráfico para a Europa, o reflexo do fortalecimento do narcotráfico na América do Sul é sentido de forma intensa no Brasil, onde se desenvolveu um Estado paralelo com base nas favelas cariocas, financiado pelo narcotráfico que investe pesado em armamentos e treinamento dos grupos organizados, gerando violência constante.

A QUESTÃO AFRICANA:
Continente marcado pelo subdesenvolvimento, pela miséria, pelo atraso político e social e recente passado colonial, na África ocorrem inúmeros conflitos, centrados principalmente em questões étnicas, guerras civis e disputas territoriais. É o maior desafio para o futuro da comunidade internacional.
Somália: guerra civil de insurgência muçulmana; Ruanda e Burundi: guerra de etnias entre Tutsis e Hutus; Angola e Uganda: guerras civis de motivo político; e mais conflitos em Mali, Senegal, Serra Leoa, Argélia, Chade, Sudão e vários outros.

OUTROS CONFLITOS E REGIÕES DE TENSÃO:
Cabe ressaltar que a região da península balcânica, com o fim dos regimes socialistas europeus nos anos 90 percebeu o ressurgimento de antigos conflitos nacionalistas originados na Idade Média.
Com o fim da Federação Iugoslava, Sérvios, Croatas e Bósnios enfrentaram-se numa sangrenta disputa de etnias, nacionalidades e hegemonia política que durou cerca de uma década.
No mesmo sentido decorrem hoje as tensões que se percebem em regiões da antiga União Soviética, como o separatismo Checheno e a questão da Geórgia.
Além da Europa, a Índia tem como um de seus obstáculos principais ao seu desenvolvimento incipiente as disputas étnico-religiosas e políticas que recaem sobre a região da Caxemira, em tensão com o Paquistão.
No extremo-oriente, os ainda sobreviventes regimes socialistas são o pivô de focos de tensão na região, como a questão da divisão das Coréias, a ocupação do Nepal pela China e outros focos, tais como o Vietnã.
Não somente os conflitos aqui relatados estão em andamento, como diversos outros ocorrem no momento.

domingo, 18 de maio de 2014

REVOLUÇÃO VIRTUAL


IMAGEM DE SATÉLITE DA EFA DE BOQUIRA

ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA DE BOQUIRA - BAHIA

EDUCAÇÃO


GLOBALIZAÇÃO


HISTÓRIA DAS COISAS


PLANETA



 A GLOBALIZAÇÃO DA POBREZA E A NOVA ORDEM MUNDIAL
A globalização da pobreza está a processar-se durante um período de rápidos avanços tecnológicos e científicos. Enquanto estes últimos contribuem para o incremento substancial da capacidade potencial do sistema econômico de produzir os bens e serviços necessários, os níveis acrescentados de produtividade não se traduzem numa correspondente redução dos níveis de pobreza global.
INTRODUÇÃO
No período do pós-guerra-fria, a humanidade atravessa uma crise econômica e social de escala sem precedentes que está a conduzir ao rápido empobrecimento de vastos setores da população mundial. Assiste-se ao colapso de economias nacionais e a um aumento alarmante do desemprego. Na África subsaariana, no Sul da Ásia e em partes da América Latina, têm-se verificado surtos de fomes a nível local. Esta «globalização da pobreza» — que, em grande medida, fez retroceder as realizações alcançadas com a descolonização do pós-guerra — teve o seu início num Terceiro Mundo marcado pela crise da dívida no princípio dos anos 80 e a conseqüente imposição de reformas econômicas nefastas pelo Fundo Monetário Internacional.
A Nova Ordem Mundial é sustentada pela pobreza humana e a destruição do ambiente. Dá origem ao apartheid social, promove o racismo e os conflitos étnicos, mina os direitos das mulheres e, freqüentemente, precipita os países para confrontos destrutivos entre nacionalidades. Desde os anos 90, tem vindo a estender o seu domínio a todas as principais regiões do Mundo, incluindo a América do Norte, a Europa Ocidental, os países do antigo bloco soviético e os «Novos Países Industrializados» (NPI) do Sudeste Asiático e do Extremo Oriente.
Esta crise a nível mundial é mais devastadora do que a Grande Depressão dos anos 30. Tem conseqüências geopolíticas de grande alcance; a perturbação econômica faz-se acompanhar pelo desencadear de guerras regionais, a fratura de sociedades nacionais e, nalguns casos, a total destruição de países inteiros. Esta é, indubitavelmente, a crise econômica mais grave da História Moderna.

A RECESSÃO DO PERÍODO DO PÓS-GUERRA-FRIA
Na ex-União Soviética, como conseqüência direta do «tratamento econômico» nefasto do FMI iniciado em 1992, o declínio econômico ultrapassou a queda na produção verificada no auge da Segunda Guerra Mundial, após a ocupação alemã da Bielorrússia e de partes da Ucrânia em 1941 e o intenso bombardeamento da infra-estrutura industrial soviética. De uma situação de emprego total e relativa estabilidade de preços nos anos 70 e 80 passou-se para um quadro de subida em flecha da inflação, queda vertical dos salários reais e da taxa de emprego e abandono dos programas de saúde. A cólera e a tuberculose alastram a uma velocidade alarmante numa vasta área da ex-União Soviética.
O modelo da ex-União Soviética repete-se na Europa de Leste e nos Bálcãs. Umas após outras, as economias nacionais desmoronam-se. Nos estados bálticos (Lituânia, Letônia e Estónia), bem como nas repúblicas caucasianas da Armênia e do Azerbaijão, verifica-se um declínio da produção industrial que atinge os 65%. Na Bulgária, as pensões de reforma tinham descido para dois dólares por mês em 1997. O Banco Mundial admitiu que 90% dos búlgaros vivem abaixo do limiar da pobreza, fixado por aquela instituição em 4 dólares por mês. Sem meios para pagarem luz, água e transportes, grupos populacionais por toda a Europa de Leste e os Bálcãs vêem-se brutalmente arredados da era moderna.

O FIM DOS «TIGRES ASIÁTICOS»
No leste da Ásia, a crise financeira de 1997 — marcada por ataques especulativos contra divisas nacionais — contribuiu em grande medida para o fim dos chamados «tigres asiáticos» (Indonésia, Tailândia e Coréia). Os acordos de assistência do FMI, impostos logo após o colapso financeiro, tiveram como conseqüência imediata o declínio abrupto do nível de vida das populações. Na Coréia, na seqüência da «mediação» do FMI — decidida após consultas a alto nível com os maiores bancos comerciais e financeiros do mundo — «uma média de mais de 200 companhias por dia fecharam as suas portas [...] Por dia, cerca de 4000 trabalhadores ficavam desempregados». Entretanto, na Indonésia, num cenário de violentos confrontos nas ruas, os salários praticados pelas fábricas ilegais nas zonas de exportação, que empregavam mão-de-obra barata, desceram de 40 para 20 dólares por mês; e o FMI insistiu na desindexação dos salários como forma de mitigar as pressões inflacionárias.
Na China, com a privatização ou falência obrigatória de milhares de empresas estatais, 35 milhões de trabalhadores estão sob a ameaça de desemprego. Segundo uma estimativa recente, existem cerca de 130 milhões de trabalhadores excedentes nas zonas rurais da China. Por ironia, o Banco Mundial tinha previsto que, com a adoção de reformas do «mercado livre», a pobreza na China desceria para 2,7% no ano 2000.

POBREZA E PERTURBAÇÃO ECONÓMICA NO OCIDENTE
Já durante o período Reagan-Thatcher, as duras medidas de austeridade implementadas tinham resultado na gradual desintegração do Estado social. As medidas de «estabilização econômica» (em princípio adotadas para «atenuar os males da inflação») contribuíram para a queda do vencimento dos trabalhadores e para o enfraquecimento do papel do Estado. Desde os anos 90, a terapia econômica aplicada nos países desenvolvidos contém muitos dos ingredientes essenciais dos programas de ajustamento estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial ao Terceiro Mundo e à Europa de Leste.
No entanto, em contraste com os países em vias de desenvolvimento, as medidas políticas de reforma na Europa e na América do Norte são impostas sem a mediação do FMI. A acumulação de grandes dívidas públicas nos países ocidentais tem proporcionado às elites financeiras uma alavanca política, bem como o poder de ditar as políticas econômicas e sociais aos governos. Sob a capa do neoliberalismo, as despesas públicas são reduzidas e os programas de assistência social abandonados. As políticas estatais promovem a desregulamentação do mercado de trabalho: desindexação dos salários, emprego a tempo parcial, reforma antecipada e imposição de cortes salariais «voluntários».
Por sua vez, a prática de desgaste — que transfere o fardo social do desemprego para os grupos etários mais jovens — contribuiu para impedir a entrada no mercado de trabalho a toda uma geração. As regras da gestão de recursos humanos nos Estados Unidos são: «'dar cabo' dos sindicatos, voltar os trabalhadores mais velhos contra os mais novos, chamar os fura-greves, baixar os salários e acabar com o seguro médico pago pelas empresas».
Desde os anos 80, uma grande parte da mão-de-obra nos Estados Unidos tem vindo a ser desviada de postos de trabalho bem remunerados e sindicalizados para empregos de salário mínimo. «Terceiro-mundismo» de cidades ocidentais: a pobreza nos guetos e zonas desfavorecidas da América é a vários títulos comparável com a verificada no Terceiro Mundo. Embora a taxa de desemprego «oficial» dos Estados Unidos tenha descido nos anos 90, o número de pessoas com empregos a tempo parcial e mal remunerados subiu em flecha. Em conseqüência do declínio nos postos de trabalho com salário mínimo, grandes setores da população vêem-se completamente afastados do mercado de trabalho: «O gume verdadeiramente selvagem da recessão fere o âmago das comunidades e dos novos imigrantes em Los Angeles, onde as taxas de desemprego triplicaram e não existe uma rede de segurança social. As pessoas estão em queda livre e as suas vidas desintegram-se, com o desaparecimento de empregos de salário mínimo».
Por outro lado, a reestruturação econômica criou divisões profundas entre classes sociais e grupos étnicos. O ambiente das grandes zonas metropolitanas caracteriza-se pelo «apartheid social» : a paisagem urbana encontra-se compartimentada segundo linhas sociais e étnicas. O Estado, por sua vez, é cada vez mais repressivo na forma como gere os conflitos sociais e procura controlar as manifestações de descontentamento da sociedade civil.
Com a onda de fusões corporativas, downsizing e encerramento de fábricas, todas as categorias da força de trabalho são afetadas. A recessão atinge a classe média e os escalões superiores da força trabalho. Os orçamentos destinados à investigação são reduzidos, cientistas, engenheiros e outros profissionais vão para o desemprego e funcionários públicos superiores e gestores são forçados a pedir a reforma antecipada...

Entretanto, as realizações do período inicial do pós-guerra têm vindo a ser anuladas através da suspensão dos planos de seguro de desemprego e da privatização dos fundos de pensões. Escolas e hospitais fecham as suas portas, criando-se assim as condições necessárias para a privatização total dos serviços sociais.

UMA ECONOMIA CRIMINOSA FLORESCENTE
As reformas do «mercado livre» favorecem o desenvolvimento de atividades ilícitas, bem como a concomitante «internacionalização» de uma economia criminosa. Na América Latina e na Europa de Leste, as organizações criminosas têm vindo a investir na aquisição de bens do Estado ao abrigo dos programas de privatização apoiados pelo FMI-Banco Mundial. Segundo as Nações Unidas, a receita total a nível mundial das «organizações criminosas transnacionais» (OCT) é da ordem de um milhão de bilhões de dólares, representando um montante equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto) do grupo de países com baixo rendimento com uma população de cerca de 3 mil milhões de pessoas. Esta estimativa das Nações Unidas abrange tráfico de narcóticos, vendas de armamento, contrabando de materiais nucleares, etc, assim como as receitas derivadas da economia de serviços controlados pela máfia (prostituição, jogo, câmbios ilícitos, etc). O que estes dados não transmitem adequadamente é a magnitude dos investimentos de rotina em negócios «legítimos» por parte de organizações criminosas, assim como o controlo significativo que estas exercem sobre os recursos produtivos em muitas áreas da economia legal.
Os grupos criminosos colaboram rotineiramente com empreendimentos legais através de investimentos numa série de atividades «legítimas», as quais não somente lhes proporcionam uma fachada para o branqueamento de dinheiro como também providenciam um processo adequado para a acumulação de riqueza fora do âmbito da economia criminosa. Segundo um observador, «os grupos de crime organizado têm um melhor desempenho do que a maioria das empresas do índice Fortune 500 [...] com organizações que se assemelham mais à General Motors do que à tradicional máfia siciliana». Segundo um depoimento prestado a um subcomitê do Congresso dos Estados Unidos por Jim Moody, o diretor do FBI, as organizações criminosas na Rússia estão «a cooperar com outros grupos criminosos estrangeiros, incluindo os sediados em Itália e na Colômbia [...] a transição para o capitalismo [na ex-União Soviética] proporcionou novas oportunidades rapidamente exploradas pelas organizações criminosas».

BANQUEIROS DE WALL STREET NOS BASTIDORES
Tem vindo a desenvolver-se um « consenso político »; por todo o mundo, os governos adotaram inequivocamente objetivos de face neoliberal. As mesmas medidas econômicas são aplicadas a nível mundial. Sob a jurisdição do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio, as reformas criam um «ambiente propício» para as atividades de bancos globais e empresas multinacionais. Não se trata, todavia, de um sistema de mercado «livre»: embora assente numa retórica neoliberal, o chamado « programa de ajustamento estrutural » apoiado pelo acordo de Bretton Woods constitui um novo enquadramento intervencionista.
No entanto, o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio constituem meros órgãos burocráticos. São organismos reguladores que operam sob uma capa intergovernamental e se encontram comandados por poderosos interesses econômicos e financeiros. Os banqueiros de Wall Street e os líderes do maior conglomerado de empresas estão por detrás destas instituições globais. Reúnem regularmente à porta fechada com o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio, bem como em inúmeros pontos de encontro internacionais. Nestas reuniões e sessões de consulta participam igualmente os representantes de poderosos grupos de pressão de empresas globais, tais como a Câmara Internacional de Comércio (CIC) (International Chamber of Commerce — ICC), o Diálogo de Negócios Transatlântico (DNT) (Trans Atlantic Business Dialogue — TABD) (que reúne nos seus encontros anuais os líderes do maior conglomerado de empresas do Ocidente com políticos e funcionários da Organização Mundial de Comércio), o Conselho de Comércio Internacional dos Estados Unidos (United States Council for
International Business
— USCIB), o Fórum Econômico Mundial de Davos, o Instituto Internacional de Finanças (IIF) sediado em Washington e que representa os maiores bancos e instituições financeiras do mundo, etc. Outras organizações «semi-secretas» — que desempenham um papel importante na definição das instituições da Nova Ordem Mundial — incluem a Comissão Trilateral, o grupo Bildeberg e o Conselho para as Relações Estrangeiras.

A ECONOMIA DA MÃO-DE-OBRA BARATA
A globalização da pobreza está a processar-se durante um período de rápidos avanços tecnológicos e científicos. Enquanto estes últimos contribuem para o incremento substancial da capacidade potencial do sistema Econômico de produzir os bens e serviços necessários, os níveis acrescentados de produtividade não se traduzem numa correspondente redução dos níveis de pobreza global. No início de um novo milênio, este declínio global do nível de vida das populações não resulta de uma escassez de recursos produtivos.
Pelo contrário, o downsizing, a reestruturação corporativa e a transferência da produção para locais de mão-de-obra barata no Terceiro Mundo têm vindo a conduzir ao aumento do desemprego e à redução dos salários dos trabalhadores urbanos e rurais. Esta nova ordem econômica sustenta-se com a pobreza humana e com a mão-de-obra barata : os altos níveis de desemprego nacional, tanto em países desenvolvidos como em países em vias de desenvolvimento, contribuíram para fazer baixar os salários reais. O desemprego foi internacionalizado, com o capital migrando de um país para outro numa busca contínua de fontes de mão-de-obra mais barata. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o desemprego afeta mil milhões de pessoas a nível mundial, ou seja, cerca de um terço da força de trabalho global. Os mercados de trabalho nacionais deixaram de ser segregados: os trabalhadores de diferentes países encontram-se em clara concorrência uns com os outros. Com a desregulamentação dos mercados de trabalho, os direitos dos trabalhadores são anulados.
O desemprego global funciona como uma alavanca reguladora dos custos trabalhistas a nível mundial: a abundância de mão-de-obra barata no Terceiro Mundo e no ex-Bloco de Leste contribui para o abaixamento dos salários nos países desenvolvidos. Praticamente todas as categorias da força de trabalho (sem excluir os trabalhadores altamente qualificados, os profissionais liberais e os cientistas) são afetadas; simultaneamente, a concorrência pelos postos de trabalho fomenta divisões sociais baseadas em classe social, grupo étnico, sexo e idade.

MICROEFICIÊNCIA, MACROINSUFICIÊNCIA
As empresas globais minimizam os custos do trabalho a nível mundial. Os salários reais no Terceiro Mundo e na Europa de Leste chegam a ser setenta vezes inferiores aos dos EUA, da Europa Ocidental ou do Japão: as possibilidades de produção são praticamente inesgotáveis, dada a grande quantidade de trabalhadores pobres em todo o mundo.
Enquanto as teorias econômicas vigentes acentuam a «distribuição eficaz» dos «escassos recursos» da sociedade, as duras realidades sociais põem em questão as conseqüências destes meios de distribuição. Assiste-se ao encerramento de fábricas, pequenas e médias empresas são empurradas para a falência, trabalhadores qualificados e funcionários públicos são despedidos e o capital humano e material é desperdiçado em nome da «eficiência». O impulso para a utilização «eficaz» dos recursos da sociedade ao nível microeconômico conduz a uma situação diametralmente oposta ao nível macroeconômico. Quando existem grandes quantidades de capacidade industrial desaproveitada e milhões de trabalhadores desempregados, os recursos não estão sendo utilizados eficientemente. O capitalismo moderno parece totalmente incapaz de mobilizar estes recursos humanos e materiais desaproveitados.

ACUMULAÇÃO DE RIQUEZA, DISTORÇÃO DA PRODUÇÃO
Esta reestruturação econômica global promove a estagnação no fornecimento dos bens e serviços necessários e simultaneamente desvia os recursos existentes para investimentos lucrativos na economia dos bens de luxo. Ao mesmo tempo, com o esgotamento da criação de capital em atividades produtivas, o lucro é cada vez mais freqüentemente procurado em transações especulativas e fraudulentas, o que, por sua vez, contribui para a ocorrência de perturbações nos principais mercados financeiros mundiais.
Uma minoria social privilegiada tem vindo a acumular vastas fortunas à custa da grande maioria da população. O número de bilionários nos EUA subiu de 13 em 1982 para 149 em 1996 e ultrapassou os 300 em 2000. O «Clube Global de Bilionários» (com cerca de 450 sócios) é detentor de uma riqueza total que excede em muito a soma dos produtos internos brutos do grupo de países de baixo rendimento, com 59% da população mundial (ver quadro 1.1). A riqueza pessoal da família Walton, do noroeste do Arkansas, proprietários da cadeia de lojas Wal-Mart (85 mil milhões de dólares) — a herdeira, Alice Walton, os seus irmãos Robson, John e Jim e a mãe, Helen — atinge mais do dobro do PIB do Bangladesh (33,4 mil milhões de dólares), com uma população de 127 milhões de pessoas e um rendimento anual per capita de 260 dólares.
A acrescentar a este quadro, o processo de acumulação de riqueza desenrola-se cada vez mais freqüentemente à margem da economia real, divorciado de atividades produtivas e comerciais fidedignas. «O sucesso no mercado de ações de Wall Street [ou seja, das transações especulativas] foi responsável pela maior parte dos bilionários no ano passado [1996]». Por sua vez, os milhares de milhões de dólares adquiridos através destas transações especulativas são desviados para contas confidenciais em mais de 50 paraísos fiscais offshore em todo o mundo. Segundo uma estimativa do banco de investimentos americano Merrill Lynch, os depósitos individuais geridos através de bancos privados em paraísos fiscais offshore totalizam cerca de 3,3 mil bilhões de dólares. O FMI calcula que os bens offshore de empresas e de indivíduos atinjam os 5,5 mil bilhões de dólares, um valor equivalente a 25% do rendimento total mundial. Nos anos 90, as fortunas das elites do Terceiro Mundo, depositadas em contas secretas e, em grande medida, obtidas por meios ilícitos, foram calculadas em cerca de 600 mil milhões de dólares, estando um terço desta quantia depositado na Suíça.

PRODUÇÃO EXCEDENTE: AUMENTO DA OFERTA, DIMINUIÇÃO DA PROCURA
O aumento da produção no sistema do capitalismo global resulta da «minimização do emprego» e do arrocho dos salários dos trabalhadores. Este processo, por sua vez, afeta os níveis de procura por parte do consumidor de bens e serviços necessários: capacidade ilimitada de produção, capacidade limitada de consumo. Numa economia global de mão-de-obra barata, o processo de aumento da produção (através de downsizing, dispensas coletivas e abaixamento de salários) contribui para reduzir a capacidade de consumo da sociedade.
Por conseguinte, a tendência é para a produção excedente a uma escala jamais vista. Por outras palavras, a expansão corporativa neste sistema só pode verificar-se através da concomitante eliminação da capacidade produtiva inativa, nomeadamente através da falência e da liquidação de «empresas excedentes». Estas últimas são preteridas em favor da produção mecanizada mais avançada: a totalidade de certas áreas da indústria encontra-se inativa, a economia de vastas regiões é afetada, e só está a ser utilizada uma parte do potencial agrícola mundial.
Esta oferta global excessiva de bens de consumo é uma conseqüência direta do declínio no poder de compra e do aumento dos níveis de pobreza. Este último resulta também da minimização dos custos de trabalho e do emprego a nível mundial sob o impacto das reformas do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio.
Por sua vez, o excesso de oferta contribui para acentuar o abaixamento das receitas dos produtores diretos, através da desativação da capacidade excedente de produção. Contrariamente à «Lei de Say», arvorada pela corrente neoliberal, a oferta não cria a sua própria procura. Desde o início dos anos 80, o excesso de produção de bens de consumo, com a conseqüente queda dos preços (reais) destes bens, tem sido causa de grandes perturbações, especialmente entre os produtores primários do Terceiro Mundo, mas também na área da manufatura.

INTEGRAÇÃO GLOBAL, DESINTEGRAÇÃO LOCAL
Nos países em vias de desenvolvimento, a totalidade de algumas áreas da indústria fornecedora do mercado interno é empurrada para a falência, em cumprimento de ordens do Banco Mundial e do FMI. O sector urbano informal — que, tradicionalmente, desempenha um papel importante na criação de emprego — foi minado, em conseqüência da desvalorização de divisas, da liberalização das importações e da política de dumping. Na África subsaariana, por exemplo, o sector informal da indústria do pronto-a-vestir foi completamente destruído e substituído pelo mercado de roupas em segunda mão (importadas do Ocidente a 80 dólares a tonelada).
Contra este pano de fundo de estagnação econômica (com taxas negativas de crescimento registradas na Europa de Leste, na ex-União Soviética e na África subsaariana), as maiores empresas mundiais beneficiam de um crescimento sem precedentes e da expansão do seu quinhão do mercado global. No entanto, este processo desenrolou-se em grande medida através do afastamento dos sistemas produtivos preexistentes — ou seja, à custa dos produtores locais, regionais e nacionais. A expansão e o «lucro» das maiores empresas mundiais assentam numa contração global do poder de compra e no empobrecimento de vastos setores da população mundial. Por sua vez, as reformas do «mercado livre» contribuíram de forma brutal para a abertura de novas fronteiras econômicas, simultaneamente garantindo o «lucro» através da imposição de salários baixíssimos e da desregulamentação do mercado de trabalho. Neste processo, a pobreza é um fator positivo da oferta. A gama de reformas do FMI--Banco Mundial-Organização Mundial de Comércio imposta ao nível mundial desempenha um papel decisivo na regulamentação dos custos do trabalho em nome do capital corporativo.
Trata-se da lei da sobrevivência do mais forte: as empresas com as tecnologias mais avançadas, ou as que podem impor salários mais baixos, sobrevivem numa economia mundial marcada pela produção excedente. Embora o espírito do liberalismo anglo-saxônico se empenhe na «promoção da concorrência», na prática as medidas políticas macroeconômicas do G-7 (através de controles fiscais e monetários apertados) têm promovido uma onda de fusões corporativas e de aquisições, assim como a falência de pequenas e médias empresas.

A DESTRUIÇÃO DA ECONOMIA LOCAL
Ao nível local, as pequenas e médias empresas são empurradas para a falência ou obrigadas a produzir para um distribuidor global. Por sua vez, as grandes multinacionais apoderaram-se dos mercados ao nível local através do sistema de franchising corporativo. Este processo permite ao grande capital corporativo (o franchiser ) obter o controlo dos recursos humanos, da mão-de-obra barata e da capacidade empresarial. Uma grande parte dos ganhos das pequenas empresas locais e/ou dos retalhistas é assim retida pela sociedade global, enquanto a maior parte dos custos do investimento cabe ao produtor independente (o franchisee ).
Observa-se um processo paralelo na Europa Ocidental. Com o tratado de Maastricht, o processo de reestruturação política na União Européia tem cada vez mais em consideração interesses financeiros dominantes, à custa da unidade das sociedades européias. Neste sistema, o poder estatal tem deliberadamente vindo a sancionar o desenvolvimento de monopólios privados: o grande capital destrói o pequeno capital em todas as formas de que este se reveste. Com a tendência para a formação de blocos econômicos tanto na Europa como na América do Norte, assiste-se à eliminação do empresário ao nível regional ou local, a vida nas cidades sofre transformações e a propriedade privada a pequena escala desaparece completamente. O «comércio livre» e a integração econômica proporcionam uma maior mobilidade às empresas globais enquanto, simultaneamente, impedem (através de barreiras institucionais e não tarifárias) o movimento do pequeno capital a nível local. Embora aparente unidade política, a «integração econômica» (sob o domínio da empresa global) promove com freqüência fações e lutas sociais entre sociedades nacionais e no seio destas.

GUERRA E GLOBALIZAÇÃO
A imposição de reformas macroeconômicas e de transações comerciais sob a supervisão do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio (OMC) destina-se a recolonizar certos países de forma «pacífica» através da manipulação deliberada das forças de mercado. Embora não requeira explicitamente o uso de força, a aplicação brutal de reformas econômicas constitui, no entanto, uma forma de guerra. Os perigos da guerra, a um nível mais geral, devem ser compreendidos. A guerra e a globalização não são questões estanques.
O que acontece aos países que se recusam a «abrir-se» aos bancos ocidentais e às empresas multinacionais em cumprimento das ordens da Organização Mundial de Comércio? Os serviços de informação das potências militares ocidentais e dos seus vários órgãos burocráticos têm contactos rotineiros com o poder financeiro instituído. O FMI, o Banco Mundial e a OMC — que policiam as reformas econômicas ao nível de país — colaboram igualmente com a NATO nas suas várias missões de «manutenção de paz», já para não referir o financiamento de reconstrução «pós-conflito» sob os auspícios das instituições de Bretton Woods.
No início do terceiro milênio, a guerra e o «mercado livre» andam de mãos dadas. A guerra não necessita da OMC ou de um tratado de investimento multilateral (ou seja, um MAI — Multilateral Investment Treaty) entrincheirado no direito internacional. A guerra é o «MAI» de último recurso. A guerra destrói fisicamente o que não foi desmantelado através da desregulamentação, da privatização e da imposição de reformas do «mercado livre». A total colonização através da guerra e a instalação de protetorados ocidentais equivalem à concessão de «tratamento nacional» aos bancos ocidentais e às empresas multinacionais (como estipulado pela OMC) em todos os setores de atividade. A «diplomacia dos mísseis» é uma réplica da «diplomacia dos canhões» utilizada para implementar o «comércio livre» no século XIX. A Missão Cushing dos EUA à China em 1844 (na seqüência das Guerras do Ópio) foi um aviso ao governo imperial chinês de que «a recusa em ceder às exigências americanas poderia considerar-se uma declaração de guerra».

O DESARMAMENTO DA NOVA ORDEM MUNDIAL
A ideologia do mercado «livre» defende uma forma nova e brutal de intervencionismo do Estado, assente na interferência deliberada nas forças de mercado. Suprimindo os direitos dos cidadãos, o «comércio livre», sob a égide da Organização Mundial de Comércio (OMC) concede «direitos inalienáveis» aos maiores bancos do mundo e às empresas globais. O processo de implementação de acordos internacionais, conduzido pela Organização Mundial de Comércio ao nível nacional e internacional, passa invariavelmente ao lado do processo democrático. Por outras palavras, ao conceder poderes alargados ao poder financeiro instituído, os artigos da OMC ameaçam conduzir ao enfraquecimento de sociedades nacionais (ver capítulo 1).
A Nova Ordem Mundial baseia-se no «falso consenso» de Washington e de Wall Street, que impõe o «sistema de mercado livre» como a única opção possível na senda ditada pelo avanço da «prosperidade global». Todos os partidos políticos, sem exceção, os Verdes, os Sociais-Democratas e os partidos ex-Comunistas, aceitam agora este consenso.
As ligações insidiosas existentes entre políticos e funcionários internacionais e poderosos interesses financeiros devem ser expostas. Para se alcançarem mudanças significativas, as instituições estatais e as organizações intergovernamentais têm de ser libertas das garras do poder financeiro instituído. É igualmente necessário democratizar o sistema Econômico e as suas estruturas de gestão e propriedade, por resolutamente em questão a concentração óbvia da propriedade e das fortunas privadas, desarmar os mercados financeiros, suspender os negócios especulativos, por fim ao branqueamento de dinheiro, desmantelar o sistema bancário offshore , redistribuir os rendimentos e a riqueza, restaurar os direitos dos produtores diretos e reconstruir o sistema de segurança social do Estado.
No entanto, é necessário ter em conta que as estruturas militares e de segurança ocidentais caucionam e apóiam os interesses econômicos e financeiros dominantes — ou seja, tanto a constituição como o exercício da força militar se destinam a impor o «comércio livre». O Pentágono é uma sucursal de Wall Street; a NATO coordena as suas operações militares com o Banco Mundial e as medidas de intervenção do FMI, e vice-versa. De forma consistente, os organismos de segurança e defesa da aliança militar ocidental, em colaboração com os vários governos e órgãos burocráticos intergovernamentais (tais como o FMI, o Banco Mundial e a OMC) partilham um entendimento comum, um consenso ideológico e igual empenho na Nova Ordem Mundial. Por outras palavras, a campanha internacional contra a «globalização» deve ser integrada numa coligação mais alargada de forças sociais empenhadas no desmantelamento do complexo militar-industrial, da NATO e das instituições da defesa, nas quais se incluem os serviços policiais, de informação e de segurança.
Os meios de comunicação globais fabricam as notícias e distorcem abertamente o curso dos acontecimentos mundiais. Esta «falsa consciência» que se infiltra na nossa sociedade impede o debate crítico e mascara a verdade. Em última análise, nega o acesso a um entendimento coletivo dos mecanismos de um sistema Econômico que está a destruir a vida das pessoas. A única promessa do «mercado livre» é um mundo de agricultores sem terra, fábricas fechadas, trabalhadores sem emprego e programas sociais destruídos, com o «amargo remédio Econômico» da OMC e do FMI a constituírem a única receita. Temos a obrigação de restaurar a verdade, denunciar os meios de comunicação de massas controlados pelas empresas, devolver a soberania aos nossos países e aos povos dos nossos países e desarmar e abolir o capitalismo global.
Esta luta deve ter uma ampla base democrática de sustentação que abranja todos os setores da sociedade a todos os níveis, em todos os países, unindo num só ímpeto trabalhadores, agricultores, produtores independentes, pequenos negociantes, profissionais liberais, artistas, funcionários públicos, membros do clero, estudantes e intelectuais. Os elementos de setores diversos devem unir-se, os grupos com uma causa específica devem dar-se as mãos num entendimento comum e coletivo do poder destrutivo e empobrecedor deste sistema Econômico. A globalização desta luta é fundamental e requer um grau de solidariedade e internacionalismo sem precedentes na História mundial. Este sistema Econômico global é alimentado pela divisão social entre países e no seio destes. A unidade de objetivos e a coordenação ao nível mundial entre os diversos grupos são cruciais. É necessário um ímpeto de grande magnitude que congregue os movimentos sociais nas principais partes do Mundo num objetivo comum e no empenhamento para a eliminação da pobreza e a obtenção de uma paz mundial duradoura.
 
Michel Chossudovsky,
diretor do Centre for Research on Globalization.
Santiago, 21 de novembro de 2003


Fonte: http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=sl62. Acesso em 18 de maio de 2014.

terça-feira, 13 de maio de 2014

ESPAÇO EDUCATIVO



O ESPAÇO EDUCATIVO DO COLÉGIO ESTADUAL LUÍS EDUARDO MAGALHÃES DE BOTUPORÃ - BAHIA
O colégio comporta uma boa estrutura física, com salas de aulas espaçosas, sala de vídeo, sala de informática, biblioteca, sala de professores, sala da coordenação pedagógica, secretaria, quadra poliesportiva, pátio e um bom quadro de professores. É considerada uma escola de médio porte, pois estudam mais de oitocentos alunos em três turnos.
Conta com um projeto político pedagógico construído pela comunidade escolar, cujo seu diagnóstico demonstra que o “trabalho coletivo ainda está restrito a um pequeno grupo de professores e alunos da escola com pequena participação dos demais integrantes da comunidade escolar.” E ainda que ”os relacionamentos da Escola com a Comunidade precisam ser ampliados através de projetos sociais, os quais proporcionem maior participação da família e da comunidade, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais participativa”. E por final cita que “de acordo com esse diagnóstico, o CELEM procura seguir a sua missão (Educando para formar cidadãos capazes de contribuir para a qualidade de vida), construindo sua identidade e buscando unidade na ação”. Os seus órgãos auxiliares têm o objetivo de auxiliar na administração da escola.
Porém, faz-se necessário uma reflexão maior sobre a relação “Teoria e Prática”, pois se tratando da construção coletiva do espaço educacional, pouco se constrói caso fique somente no campo das idéias, se estas não conseguirem ser demonstradas na prática, inclusive para ser avaliadas e aperfeiçoadas naquilo que for cabível. A cada dia os educando precisam verificar a comprovação prática das idéias, se não elas se tornam vazias e sem importância, perdendo assim a sua eficácia na transformação do meio.
Por outro lado, parte do seu espaço físico é pouco utilizado para fins educativos.  Seu “quintal” poderia ser mais bem aproveitado com o desenvolvimento de projeto de viveiro de mudas; construção de hortas escolares; prática de jardinagem; experiência com minhocário; composto orgânico; plantas medicinais da região; experiência com abelhas nativas; construção de um museu de geociência ao ar livre; áreas com exemplo dos biomas característicos da região; espaços nos muros para a prática de grafites ou outros tipos de pinturas.
 A escola apresenta um potencial enorme que poderia ser mais bem explorado se houver um esforço conjunto da direção, coordenação pedagógica, professores, funcionários e alunos, em fim toda a comunidade escolar neste objetivo. Porém a prática educacional ainda está muito voltada para as atividades; somente em sala de aula, deixando de aproveitar o espaço externo da escola onde poderia ser desenvolvidas aulas de campo e experiências em pequeno espaço, demonstrando a viabilidade da sustentabilidade ambiental. Se isso acontecesse, o estudo poderia se tornar mais significativo e as experiências vistas em sala de aula poderia ser demonstrada na prática neste espaço.
No entanto, para que essas possibilidades se transformem em práticas. Faz-se necessário uma reformulação no projeto político pedagógico, e nesta oportunidade poderiam ser discutidas essas propostas, assim como, acrescidas de outras que pudessem vir da comunidade escolar, e num esforço conjunto construir um plano de ação definindo o papel e as responsabilidades de cada um na execução deste projeto. Sendo que essa experiência deveria ser avaliada a cada unidade no sentido de corrigir as possíveis falhas e aperfeiçoar o trabalho.
Se tudo isso vir a ser realidade talvez a escola se torne um espaço onde a realidade de fato deva ser analisada e ao mesmo tempo apresentada as propostas de mudança através do desenvolvimento de experiências providas dos professores e estudantes transformando assim num espaço de construção e experimentação dos conhecimentos produzidos.
O espaço físico e algumas condições já existem, o que falta é pouco, se todos estiverem dispostos, é possível com o esforço conjunto do poder publico e da comunidade escolar através de projetos para implantação de experiências de desenvolvimento sustentável no âmbito escolar. As diversas áreas do conhecimento precisam repensar o seu papel no processo educativo escolar, aja visto que o comportamento dos alunos demonstra pouco apreço pela forma como tem sido trabalhado os conteúdos em sala de aula, em outras palavras eles querem e precisam de mudança, para que não percam ainda mais o estímulo pelo estudo e pela pesquisa na construção do conhecimento.                                        Antonio Matias de Souza.