O PAPEL DA GEOGRAFIA NA EDUCAÇÃO
AMBIENTAL
A geografia que tem como objeto de
estudo a análise do espaço geográfico em seus diversos aspectos; busca
contribuir com as demais ciências na construção de propostas de educação
ambiental de forma interdisciplinar, chamando para o diálogo os outros espaços
de construção do conhecimento, assim como os setores responsáveis pela
transformação do espaço geográfico.
Para que isso aconteça, precisa-se
pensar um novo jeito de fazer educação, é necessário que as pessoas envolvidas,
sintam-se atores e co-responsáveis pelas mudanças que a escola precisa
realizar. Estas mudanças devem ser realizadas a partir da abertura da escola as
críticas e sugestões, buscando: Criar espaços para o debate democrático e
instituir um senso de responsabilidade coletiva na prática da educação
ambiental, que de fato contribua para a mudança de consciência e atitude das
pessoas em prol de um ambiente mais saudável, onde os direitos humanos e as
leis em defesa do meio ambiente sejam respeitados.
O envolvimento do setor público em suas
diversas esferas, executivo, legislativo e judiciário, com certeza pode ajudar
na educação ambiental, que não é responsabilidade única da escola, mais de
todos os cidadãos e de todos os setores organizados da sociedade, poder
público, associações, igrejas e também os setores privados.
Faz se necessárias ações conjuntas das
diversas instâncias que compõem o poder público e seus departamentos; nos
eventos festivos culturais e religiosos, na dinâmica de educação desenvolvida
pelas escolas, nos meios de comunicação social e nos demais setores que lidam
com as questões humanas e ambientais. Tudo isso, só será possível com diálogo
entre os diversos seguimentos da sociedade, provocando um debate democrático,
criando elementos que fortaleçam a democracia e a responsabilidade
sócio-ambiental de todos.
A geografia faz parte de um conjunto
das ciências que procura analisar o espaço vivido pela sociedade, no intuito de
melhorar a relação natureza e sociedade. Aja visto que os recursos disponíveis
na natureza foram e continua sendo muitas vezes explorados de forma não sustentável
pela sociedade desde as primeiras fases da revolução industrial, até o atual
momento do desenvolvimento científico - tecnológico - informacional. Nesse
sentido, o ensino de geografia nos seus diversos níveis, fundamental, médio e
superior, precisa ser planejado e avaliado de forma conjunta com as demais
ciências afins, facilitando o processo de construção coletiva do saber e
possibilitando o desenvolvimento da cidadania pessoal e planetária. Contribuindo assim para que sociedade possa
repensar sua relação consigo mesma e com as questões ambientais, envolvendo a
utilização dos recursos materiais e humanos e as técnicas desenvolvidas ao
longo da história de exploração do planeta, numa escala local, nacional e
global.
Neste sentido, a geografia deve
desempenhar seu papel, pois "a geografia tem a ver com tudo, mas nem por
isso deixa de dar conta do recado." Ela está na encruzilhada de numerosos
caminhos [...]Trystram, (1994 apud MENDONÇA, 2001, p.125). Pode-se afirmar que
a geografia com o seu caráter interdisciplinar, precisa construir com as demais
disciplinas uma rede de discussão e aprofundamento das questões ambientais no
espaço geográfico.
Na visão de Oliva (2003, p.46);
"A função de qualquer disciplina não é o entendimento do seu objeto de estudo,
e sim a partir dele colaborar para a compreensão do todo." Assim, é
necessário que as diversas áreas que estudam as questões ambientais e sociais
procurem enfocar a problemática sócio-ambiental nos conteúdos trabalhados em
sala de aula. E que todo educador independentemente da corrente de pensamento,
que direcione seus discursos e práticas, busque o entendimento das relações de
conflitos e desigualdades sócio-ambientais e regionais existentes na
distribuição e uso das riquezas produzidas com a utilização dos recursos
naturais pertencentes à humanidade nos diversos lugares do mundo globalizado.
Para Monteiro (1984 apud MENDONÇA, 2001, p.123),
[...] os geógrafos dedicados aos
aspectos naturais não deixem de considerar o homem no centro deste jogo de relações,
e que aqueles dedicados às desigualdades sociais não as vissem fora dos lugares
seriam meros pontos superficiais de uma convergência que do pode ser, como tem
sido, desatada a qualquer momento.
Monteiro destaca a necessidade dos
geógrafos não separar o natural do social e vice-versa. O ser humano também é
um ser natural, que se socializa em contatos com seus semelhantes, nesse
processo de socialização modifica o seu espaço de vivência, que a princípio tem
como intuito a sua sobrevivência. No entanto, o espírito egoísta e de consumo
tem contribuído para a degradação do seu meio, criando a cada dia novas
necessidades desnecessárias, o que provoca uma maior exploração dos recursos
naturais e da mão de obra humana, levando a escravidão do homem pelo homem, num
cominho de autodestruição.
No espaço escolar e sócio-ambiental,
a questão da Educação Ambiental deve estar presente: Nas discussões feitas em
sala de aulas com os alunos sobre os desafios que o mundo apresenta na
atualidade; nos planejamentos estratégicos; na formação continuada de
professores; nos eventos desenvolvidos pelas escolas junto às comunidades. Por
isso, os professores, especialmente de geografia, devem assumir esse
compromisso e desafio. A geografia dá elementos teóricos para o trato das
questões que envolvem as relações entre natureza e a sociedade. Como ciência,
ela discute a organização espacial e suas transformações provocadas pela ação
humana, ela pode e deve contribuir com a diminuição das desigualdades
sócio-ambientais. Neste sentido, Gloria (2003, p. 141) chama atenção para a
seguinte questão:
Na tentativa de mostrar que as pessoas
são responsáveis pelos problemas ambientais, é mostrado uma casa na favela, a
imagem de um córrego, em que uma mulher pobre, com pano na cabeça, joga no
córrego a sujeira (resto de comida). A seguir uma chuva provoca o aumento das
águas, a enchente, e todo lixo do córrego, inclusive o que a mulher havia
jogado, volta e deixa seu barraco infestado. Moral da história: Os pobres são
os culpados pela sua própria situação. A mulher é que teria provocado sua
própria desgraça. Isso poderia ter sido evitado, se tivesse contribuído com a
natureza não lançando lixo no córrego. Poucos que assistem a vinheta bem feita,
colorida, rápida como flash, questionam sobre os motivos de a mulher morar aí,
se existe ou não no local coleta pública de lixo e ainda se o lixo existente no
córrego é resultado exclusivo do depósito feito por pessoas de baixo poder
aquisitivo, ou se nele inclui-se lixo industrial ou aquele não tratado pela
companhia de saneamento e esgoto.
As questões ambientais são complexas e
exigem uma análise crítica localmente e globalmente, não se pode culpar
determinado setor da sociedade sem fazer uma reflexão profunda sobre as causas
dos problemas, que na maioria das vezes as populações empobrecidas são as mais
prejudicadas com a poluição, produzida em nome do desenvolvimento e do
crescimento econômico.
Segundo Castrogiovanni (2003, p.79);
"No ensino da geografia o local e o global forma uma totalidade. A partir
das representações dos lugares, o aluno forma um ideário que envolve a
totalidade indispensável do espaço geográfico". Isso mostra a importância
de se fazer uma análise das questões locais sem deixar, no entanto, de refletir
também sobre outras realidades, pois no mundo globalizado a cada dia é visível
a relação mútua que existe entre esses "dois espaços." Para construir
essa percepção, é preciso "ter a educação como referência, como valor, é
não vulgarizar a cultura e os conhecimentos, é não se dobrar ao consumismo e as
modas" (OLIVA, 2003, p. 48). E isso só é possível se as pessoas mudarem
seu estilo de vida. Por exemplo, consumir produtos ecologicamente sustentáveis;
valorizar os produtos naturais produzidos de forma orgânica; utilizar produtos
que não utilize mão de obra escravizada na produção; valorizar as culturas dos
povos tradicionais e nativos; diminuir o consumo de produtos que utilizam
recursos naturais não renováveis e denunciar os crimes sócio-ambientais.
É
necessário que em todos os níveis de ensino os alunos pesquisem mais,
especialmente a pesquisa ação, pois ela poderia trazer soluções apresentadas
pelas pessoas envolvidas na pesquisa, assim, se conseguiria perceber que as
soluções para os problemas enfrentados pela sociedade estão na própria
sociedade. No entanto, nem sempre a escola ajuda o educando, principalmente
quando ela fica presa somente a sala de aula e aos livros didáticos. Freire
(1979, p.17), nos lembra que, "assim como não há homem sem mundo, nem
mundo sem homem, não pode haver reflexão e ação fora da relação
homem-realidade.”.
Diante disso, a escola precisa envolver
todos educadores e educandos no processo de construção coletiva do processo
educativo utilizando a prática da ecoformação, que segundo Gadotti (2000, p.85),
"se alimenta do paradigma ecológico, interrogando-se sobre as relações
entre o ser humano e o mundo." Isso exige uma reflexão sobre as atitudes
pessoais através da autocrítica, ao mesmo tempo permite analisar como a
sociedade vem reagindo diante dos problemas ambientais. .
O conhecimento popular tem sido
banalizado e pirateado por grandes empresas, com a adoção, por exemplo, da lei
de patentes, transformando as experiências do povo em instrumento de
exploração, objeto de enriquecimento e não de construção da vida. O
processo de educação ambiental tem que ser permanente, é preciso analisar os
erros cometidos com o meio ambiente e transformá-los em aprendizagem. De
acordo com Minc (2005, p.72) "A educação ambiental bem-ensinada e bem
aprendia tem de ter relação com a vida das pessoas, o seu dia-a-dia, o que eles
vêem e sentem o seu bairro, a sua saúde, as alternativas ecológicas".
Partindo destes princípios, quem sabe assim, seja possível construir uma
Educação Ambiental prática na escola, envolvendo professores, alunos e demais
funcionário do espaço educativo, na mudança de hábitos alimentares, na rotina
das aulas, nas pesquisas de campo, em fim, na transformação do espaço
escolar. Segundo Santos (2002, p.261)
Agora, que a natureza modificada pelo
trabalho humano é cada vez menos a natureza amiga e cada vez mais a natureza
hostil, cabe aos que a estudam uma vigilância redobrada. E a geografia, tantas
vezes ao serviço da dominação, tem de ser urgentemente reformulada para ser o
que sempre quis ser: uma ciência do homem.
É preciso alimentar a esperança e ao
mesmo tempo estabelecer ações que possam fazer da educação ambiental um
instrumento de reencontro entre a natureza e a humanidade. Neste sentido, a
geografia e os geógrafos precisam lutar para que esta ciência cumpra o seu
verdadeiro papel, que é o de analisar o espaço geográfico e sua relação com a
sociedade, buscando entender os recursos naturais como fonte de geração de vida
e não de destruição dos seres animados ou inanimados existente no planeta.
A Educação Ambiental crítica e
interdisciplinar deve está presente na transformação do espaço geográfico e do
ser humano. Tornando-o mais humano, a partir da mudança de comportamento das
pessoas; das práticas existentes no ambiente escolar, como a melhoria da
qualidade da merenda, o destino que é dado ao lixo produzido na escola, uso que
se faz do pátio, e a analise das questões ambientais existentes no entorno
escolar e no planeta.
É evidente que essa prática vai exigir
muita persistência, determinação e força de vontade dos cidadãos e cidadãs
envolvidos no processo educativo, pois a estrutura educacional ainda carece de
ações concretas nos projetos interdisciplinares desenvolvidos pela escola.
Estes são desafios que precisam ser enfrentados por todos na edificação de um
objetivo comum, que só será possível com o envolvimento da sociedade, num
processo de Educação Ambiental formal e não formal, contribuindo para que o
espaço geográfico local e mundial se torne um lugar melhor pra se viver hoje e
no futuro.
Enfim, ser um cidadão consciente,
esforçando-se para apoiar e participar das organizações que buscam construir um
modelo alternativo de consumo e de sociedade. Estar aberto ao novo sem perder a
capacidade crítica diante das propostas oferecidas pela sociedade consumista e
exploradora da natureza e do ser humano. Sonhar e visualizar o sonho de uma
nova revolução, não industrial, mas uma revolução da consciência de que todos
os seres, e em especial, o ser humano que é inacabado, porém dotado da
capacidade de transformação da realidade sócio-ambiental.
Transformar tudo isso em um espaço de
diálogo e de conhecimento da realidade local e planetária, "arregaçar as
mangas" e ir para prática. Isso é o que o planeta espera de seus
terráqueos, que foram capazes de desenvolver as ciências como forma de
superação e melhorias das condições de vida. É chegado o momento de fazer uso
deste instrumento para ampliar a formação de cidadãos conscientes do seu papel
na construção de uma sociedade e de um espaço melhor pra se viver, respeitando
os limites da natureza e da própria humanidade, reeducando as ações e
corrigindo atitudes.
Antonio Matias de Souza
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